segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mudar o temário

Por diversas vezes pensei que os temas debatidos pelo movimento dos espíritas andavam (e ainda andam) sofrendo de tautologia. Não é responsabilidade de ninguém especificamente. Ousaria dizer que se trata de uma tendência existente há algum tempo. Os assuntos não mudam, as ideias permanecem as mesmas, as pessoas são as de sempre e até os títulos de estudos mantêm-se inalterados (pasmem!).

Mas quando vejo alguns emails que chegam à minha caixa de mensagens, que trazem assuntos os mais banais possíveis, tais como "responder espírita ou kardecista para o censo", "o filme sobre Nosso Lar e as falanges que  atuariam durante as sessões", "as impressões pessoais de quem assistiu ao filme, avaliando-o", "a convocação da FEB e de seus seguidores para irem todos os espíritas assistir a tal ou qual filme", enfim, quando vejo essas discussões disparatadas, fico pensando: alguma coisa tem de mudar. Bom, nada melhor do que mudar o temário dos debates.

Vamos falar sério! Acaso saber qual resposta dou ao censo é relevante? Assistir ou não a um filme, que nem espírita é, modifica algo? Absolutamente não! Então, por que não colocar na roda da discussão o próprio Movimento Espírita (agora, sim, escrito com letra maiúscula)? A propósito, tem merecido cada vez mais ser estudado, analisado e posto à prova. Por que não debatermos práticas de atuação na sociedade? Espiritismo não é conhecimento para guardar para si. Por que não conversarmos sobre assuntos que tocam diretamente a vida dos homens? É necessário, mais do que nunca, percebermos que os temas espíritas são úteis para a vida prática cotidiana.

Imprescindível escolhermos, sem hipocrisia, pieguice ou afetação, temas que podem efetivamente nos ajudar a crescer. Fora a desonestidade, o fingimento, o discurso farisaico! Vamos nos olhar com naturalidade e ver que somos normais; não somos nada especiais, nem privilegiados. É preciso mudar o discurso!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

R. post

Quanto você precisa elogiar seu pai, sua mãe, alguém para ganhar alguma coisa? Não sei. Cada um sabe o quanto pode e deve se submeter a isso.

Fico vendo algumas peças processuais e cada vez me espanto mais! "A v. senteça", "o r. despacho", "o i. Representante do MP", "o Egrégio Tribunal", "o Pretório Excelso"... a lista de elogios é imensa! Não estou nem falando das abreviações esdrúxulas utilizadas. V. R. I. PRI. e por aí vai... como se PRI fosse tão fácil de saber o que é quanto INSS!

E pergunto: para que tanto elogio? Venerável sentença? Respeitável despacho? Ora, se estou discordando da decisão, por que tenho de elogiá-la? Ou, de outra forma, não é porque discordo dela que tenho que elogiar. Até porque a quantidade de decisão que não merece elogio cresce exponencialmente! Mas isso é outro assunto.

O elogio, em outros tempos, podia ser forma simpática de abordar uma pessoa. Quem nunca assistiu a um filme sobre épocas passadas que não se espantou com tanta gentileza entre as pessoas? E quem, tendo assistido às amabilidades, não viu, também, as mesmas pessoas apunhalarem as elogiadas pelas costas? Se lermos uma obra excelente de Baltasar Gracián, "A arte da prudência", poderemos ver como é conveniente elogiar alguém para ganhar algo. No mundo da prática jurídica não é diferente; elogio para lá, louvor para cá. E todos querendo algo, ainda que seja legítima a pretensão.

E o conteúdo? Ah! para que conteúdo? Vamos nos ater à forma que vale mais a pena! (Bom, no mínimo exige menos qualidade).

sábado, 11 de setembro de 2010

(Im)pessoalidade

Aconteceu com um amigo meu, embora eu estivesse presente.

Fomos a uma cidadezinha pequena, dessas metidas sabe-Deus-onde, fazer uma audiência. Na verdade, eu fui só acompanhar. Chegamos cerca de 40 minutos antes do horário marcado para o início da audiência.

Pouco depois, passa o conciliador, nos cumprimenta, entra na sala dele. Volta com os autos na mão e pergunta: "o X já está aí?" (X, neste caso, é o nome do cliente que meu amigo representava). "Sim", respondeu meu amigo. "Tem acordo, Dr.?" (não sei por que essa maldita tradição de chamar qualquer advogado de doutor continua, mas vá lá...). "Temos uma proposta". "Ah, sim, porque se não tivesse, eu já iria fazer a ata". Meu amigo, conhecedor do Direito brasileiro, coisa que aquele conciliador não deveria conhecer, comentou assombrado: "Engraçado! Por que ele iria fazer a ata, se existe a possibilidade de o autor da ação não comparecer?". Eu, de mim e para mim, não disse nada.

Conversávamos, meu amigo e eu, sobre amenidades, quando, repentinamente, o conciliador novamente se dirige ao amigo-advogado: "Olha, Dr., não se preocupe, porque eu já liguei para o autor da ação e pedi para ele vir, para a gente adiantar a audiência". Por essa nós não esperávamos. "Ele ligou para o autor?", perguntou-me meu amigo. "Acho que foi isso mesmo que entendi", disse eu, mais assustado que ele. Indignado, talvez fosse a palavra mais exata.

Bom, passada essa aberração jurídica, foram apregoadas as partes. Eu, como não era parte nem procurador,  pedi para assistir à audiência, o que me foi permitido. Meu amigo já foi logo dizendo que não haveria acordo tendo em vista algumas razões que ele apresentou. O advogado do autor, aparentemente amigo do conciliador, se limitou a dizer que a proposta que lhe faziam ele não iria aceitar porque "isso o juiz já vai me conceder". Pá! Mais um soco no estômago! O advogado sabia que o juiz deferiria seu pedido. Não bastasse o que já havia se passado, telefonemas, premonições, amizades, outro golpe foi desferido. "Conste na ata, por favor, meu pedido de julgamento antecipado da lide", pediu meu amigo. "Consto sim, Dr., mas a juíza vai marcar audiência de instrução e julgamento", respondeu o conciliador. "Mesmo sem testemunhas a serem ouvidas e sem pedidos de depoimento pessoal das partes?", continuou o amigo-advogado. "Sim. Ela vai tentar forçar o acordo!". Neste instante, eu, que estava ali como um móvel da sala, tive um ataque de tosse. Obviamente, não tinha nada de errado com minha garganta; era só uma reação física do que espiritualmente eu sentia.

É verdade que minha narrativa não se parece com nada do que existe de boa literatura. Nem é para parecer. Não sou contista, poeta, escritor (no sentido canônico do termo), nem me meto a tentar ser. Isto aqui é só um caso, ou um causo?, para que possamos fazer os reparos necessários. Quem lê, entenda.
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