sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pelo retrovisor

"E vi pelo espelho na distância se perder"*

Quando estamos dentro de um automóvel (que velho! "automóvel"! carro!), a única forma segura de olhar para trás é pelo retrovisor. Não à toa existem pelo menos três deles. Afora as questões da física e os espelhos côncavos, convexos e planos - o que, me desculpem, já fiz questão de esquecer assim que passei no vestibular - as pessoas, situações e objetos vistos através do retrovisor são de tamanho menor do que quando observados face a face.

Assim é o meu olhar para 2011. Olho este ano pelo retrovisor. Tudo o que se passou já não mais tem a dimensão que outrora teve. Pessoas ficaram para trás, situações não me atormentam mais, circunstâncias se tornaram menos gravosas, coisas perderam a magnitude que possuíam. Não digo isso com desdém ou despeito, tampouco com desconsideração ou menosprezo. Apenas não dou mais importância àquilo que vejo por esses pequenos espelhos que nos servem para observar o que há atrás de nós. Fazer um balanço é muito complicado. E eu adoro o que não é simples!

Dois mil e onze, assim, escrito por extenso, pode ser visto como um ano de várias mudanças. Mudei minha forma de encarar o Direito, o Judiciário e a advocacia. Percebi que fracassos ou desconfortos não podem ser únicas causas para se desistir de algo tão bonito. Acontece, é verdade! Decepções, tristezas, angústias, tudo isso compõe um quadro verdadeiramente desanimador. Lutar pelo Direito, como diria von Jhering, não é desafio de um dia ou um ano; tem de ser encarado como projeto de vida! Lutar pelo Direito não é só defender seus clientes mais abastados; isso qualquer um faz. Há de se ter coerência, moralidade, ética na luta pelo Direito. É necessário conciliar suas convicções mais sublimes com a prática da advocacia. Sem isso, desculpe-me, você é só um instrumento qualquer utilizado por quem paga mais.

Essa mudança não veio sozinha ou sem causa. Oportunidade nova e bendita se fez. Como disse em outro post: oportunizei-me! Se num campo a semente não frutificou, não poderia eu negligenciar a lavoura em outro espaço. A amizade que me fez padrinho, agora me faz colega de trabalho. Grande causa de felicidade! O Direito, o Judiciário e a advocacia voltaram a brilhar como quando entrei na faculdade, naquele ano de 2002. Porém, agora, um pouco mais maduro estou e menos susceptível às investidas dos teóricos utópicos ou dos práticos empedernidos. Conciliar teoria e prática do Direito, além das maravilhosas conquistas nas Ciências Sociais, tem sido realmente uma tarefa prazerosa!

Modifiquei minhas prioridades com as pessoas. Não corro atrás de quem não iria atrás de mim. Egoísmo? Não, respeito próprio! Se você não faz questão de mim, por que eu faria de você? Então estamos bem. Unido a isso está a vontade sempre grande de estar com os bons amigos. Antigos e novos. Amigos que não via há anos, mas que, ao nos encontrarmos, havíamos tomado umas ontem. Sete Lagoas me deu amizades para viver. Juiz de Fora me dá amizades para continuar a caminhada. Sem os de lá e os de cá, "quem, então, agora eu seria?" Meus amigos são e sempre serão prioridade para mim. Esta é outra grande mudança em 2011.

Miro lá ao longe um sentimento dúbio. Também passou. Só posso olhar para ele através do retrovisor. Só posso retirar dele uma lembrança do que não quero. Agora, fitando o horizonte diante dos meus olhos, encontro um sentimento firme, forte e, espero, duradouro. Mudei? Sim? Mudou? Também. Mudamos? Demais. Essa menina bonita bordada de flor me mostrou que é possível quando queremos. E, agora, no plural, queremos! Assim como o restante, esses medos, apegos e fortes convicções ficaram lá atrás; e só posso olhar para eles pelo retrovisor.

Pelo espelho vejo um movimento que já me agradou. Senti raiva, desprezo, carinho. Hoje, menor em importância, tento crescer sem ele ou com um mínimo dele. A propósito, agora não me filio, sou simplesmente do movimento. Engraçado isso! Estranho, às vezes. É verdade que me sinto um patinho feio, um peixe fora d'água ou mesmo um louco (daqueles que Foucault apresentou em sua aula inaugural). Mas não me acanho. Esse movimento, que caminha a passos largos para a autodestruição (está certo, Pasquales da língua portuguesa?), observado pelo retrovisor, me faz querer ser maior. Menos institucional e mais espiritual. Mirando a dianteira, ainda há salvação!

Olho pelo retrovisor e vejo 2011 com pequenos obstáculos. Quase todos vencidos. Dou adeus a eles e digo: "se quiserem, apareçam! Serão muito bem vindos novamente. Mas nem vocês serão os mesmos, nem eu!. Talvez o espelhinho convexo da vida não me dê uma imagem virtual de vocês, mas uma imagem bem real da sua pequenez". Afetos, desafetos, conquistas e derrotas. Pelo retrovisor, tudo fica menor. É bom que seja assim; menor, distante e esquecido.

Para seguir adiante, é preciso olhar para a frente, vez em quando para trás, mas através do retrovisor.

*Roberto Carlos e Erasmo Carlos - As curvas da estrada de Santos

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Reflexo parcial

Você se incomoda com meu jeito de andar.
Você se aborrece com minha forma de falar.
Você se constrange com minhas piadas.
Você se chateia com meus comentários.
Você se envergonha com meus infindáveis gestos.
Você sente pena da minha mediocridade.
Você se espanta com tanta futilidade.
Você não compreende como posso ser tão paradoxal.
Você se frustra com minhas derrotas.
Você fica perturbado quando falo alto (e isso ocorre quase sempre).
Você se surpreende com meus arroubos.
Você vê tudo isso em mim.
Mas, convenhamos, espelho, você se diverte a rodo com tudo isso!

Competitividade

"Quem chegar por último é a mulher do padre!". E lá se vai uma vida perdida...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Fone de ouvido

Dia desses, caminhando pelas ruas da nossa Manchester mineira, chamou-me a atenção um objeto. Enfiado em meus ouvidos, não o percebia, exceto quando o fio tornava-se demasiado curto e impedia-me os movimentos da cabeça. No celular, no mp3 ou no iPod, o fone de ouvido, para uns, é uma bênção.

Quem discorda da necessidade de se presentear aqueles indivíduos que, em locais públicos ou em transporte coletivo, insistem em ouvir suas pérolas musicais em alto e bom(?) som? Quem nunca se utilizou da estratégia, por vezes imprescindível, de colocar o fone nos ouvidos para evitar aquele vizinho da poltrona ao lado que pretende travar longas conversas durante as quatro horas de viagem? Ou, até mesmo, para evitar ouvir os gritos, choros e birras de crianças em volta? Pois é. O fone de ouvido realmente pode ser muito útil.

Entretanto, o que me chamou a atenção para o fone não foram essas situações. Foi o pedido de um morador de rua que me fez despertar para o comodismo hipócrita e egoísta que esse dispositivo pode, conscientemente ou não, despertar em nós.

Por trás dos óculos de sol nos achamos invisíveis. Olhamos aquela pessoa que passa, fingimos não ter visto aquele outro que não queríamos encontrar, damos desculpas "oh! tava de óculos! nem vi!", ou não cruzamos olhares em uma conversa (o que, aliás, pode nos salvar alguns momentos desconfortáveis). Com os fones nos ouvidos não somos cegos, somos surdos.

O pedido de ajuda, o bom dia, o obrigado, a solicitação das horas passam a não mais existir com os fones nos ouvidos. "Socorro!", teria gritado aqueloutro que não ouvi, pois a música era muito boa e o som estava alto. "Moço, pode me dar uma moeda?", também não ouvi. É mais fácil assim, posso dizer que o fone não me permite escutar os sons do ambiente em torno de mim. Não só com relação àqueles que pedem algo na rua; também naquela situação - que para uns pode ser ótimo ter os fones - da viagem curta ou longa, a barreira auditiva é imposta unilateralmente por mim, privando o outro e eu mesmo de um diálogo que até pode ser engrandecedor. Perdemos oportunidades de troca enfiando um pedaço de plástico nos ouvidos.

Só somos humanos em relação. Até mesmo numa perspectiva biológica como a de Humberto Maturana a disposição ao outro, a abertura e o acolhimento são o fundamento das sociedades, o que ele chama, em um ensaio bem interessante, de amor. Num sistema vivo, apenas quando há relação de amor há a possibilidade de existência dos seres vivos desse sistema. Se interditamos a comunicação, como chegar ao outro? Como manter viva a humanidade?

No limite deste meu confuso pensamento, ab absurdo, estaria o fone nos ouvidos também ajudando a aumentar a distância que me separa do outro e, por consequência, matando a sociedade humana ?
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