sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Inter nações

Em homenagem aos meus dois internacionais interlocutores de terça-feira.
(En honor a mis dos internacionales interlocutores del martes.)
(In honor of my two international interlocutors on Tuesday.)

Sempre fiquei muito intrigado com as descrições de outros países que chegavam a mim. Ou se tinham elogios pouco críveis, ou apareciam descrições que atingiam o preconceito. A propósito, muito do que se houve sobre o estrangeiro vem de pessoas que nunca estiveram lá ou jamais trocaram cinco minutos de conversa com um "gringo".

Ah! "Gringo"! Até esta palavra tem uma aplicação certa para designar os brancos, de olhos azuis e cabelos loiros. "Problema deles", teria dito outrora nosso cefalópode presidente. Deles? Nosso? Onde a divisão?

Terça-feira passada tive uma das mais interessantes experiências da minha vida. Durante um encontro não programado, estive bebendo uma boa cerveja ao lado de um equatoriano que mora no Chile e de uma estadunidense que viaja já há quinze meses pelas Américas Central e do Sul. As conversas, longe de beirarem o trivial, foram substanciosas e bastante instrutivas. A princípio, claro, para quebrar o gelo, perguntas e respostas sobre gostos, cidade natal, profissão etc. Essas small talks necessárias para criar um ambiente de mínima intimidade.

Passados os momentos iniciais de puras curiosidades privadas, enveredamos por conversas demasiadamente proveitosas para todos. Cada um falando sobre seu país, para bem e para mal, apresentando aquilo que mais se destaca nacionalmente. E foi imensamente agradável ouvir sobre a condição de vida dos estadunidenses, tão diferente daquele american way of life vendido mundo afora, assim como também o foi escutar sobre as razões de uma família inteira se mudar de um país para outro.

O que pensamos sobre os demais países? O que eles pensam de nós? Às vezes, é perturbador verificar que, sim, eles não sabem da nossa existência; que, sim, imaginam o mundo de uma forma quase caricata; que, sim,  o povo não vive aquela propagada democracia. Ainda, é difícil perceber que as teorias com as quais você mais compactua, quando aplicadas, provocam tanto dissabor, desgraça e desigualdade que se torna quase impossível defendê-las diante de alguém que passou pela vivência do equívoco teórico.

Nessas conversas de terça, expandi alguns conceitos, suprimi alguns preconceitos. Hoje, talvez eu possa falar sobre aqueles países e suas circunstâncias de forma mais próxima. Talvez não. Importa que, após charlar com eles, eu não continue preso à bolha soprada por outras bocas.

Aqueles dois interlocutores me mostraram um pouco mais do grande mundo em que vivemos. E quão assustador é quando seu castelinho de areia desmorona...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Show do milhão (e alguns devaneios)

"Quem quer dinheirooooo?". Ah, "Seu" Sílvio, eu quero! Ah! Não! Não é esse o programa. No Show do Milhão, que depois virou Jogo do Milhão, ou vice-versa, não havia aquela pergunta. Havia? Não me lembro. Acho que não. Pouco importa!

Importa é que agora tem outro Show do Milhão. Menos empolgante, é verdade; menos público e menos participativo também. E menos moral, é verdade de novo. Quem não viu ainda as inúmeras reportagens sobre os milhões de reais sendo distribuídos entre os desembargadores do Estado de São Paulo? E os desembargadores de Minas Gerais que foram promovidos ao cargo em detrimento de inúmeros outros que teriam melhores condições jurídicas e chances mais legais para a ascensão na carreira?

Pois é... a coisa está feia. Juízes têm que ganhar bem, afinal, se ganharem pouco, pelo poder e pela responsabilidade que os julgadores têm nas mãos, conjugados aos inúmeros interesses e grandes interessados participantes dos litígios, a probabilidade de se corromperem é bem grande. Esse é um argumento muito ouvido (principalmente lá na Matrix). Mas eu pergunto: será? Corrupção está ligada ao quanto alguém recebe mensalmente - como uma armadura ao deslize, para dizer o mínimo, legal - ou à estrutura ética e moral do ser que julga? Mas juiz também não pode ganhar muito, pois, se receber uma remuneração elevada, pode virar as costas para os casos que julga, envaidecido. Verdade?

Sei que existem juízes bastante honrados, que realmente merecem ser chamados excelentíssimos ou ilustres. Sei que a carga de trabalho destes juízes é deveras extensa, pois eles levam a sério o ofício de julgar, lendo processos, pensando sobre eles, elaborando suas decisões para os casos específicos. Mas sei, também, de alguns juízes que mal olham para os autos, sequer tomam conhecimento da sentença escrita por outras pessoas e, ainda me assusto com isso, não gostam de fazer audiência. Não gosta de fazer audiência? Quando ele prestou concurso, será que sabia que isso era uma das obrigações dele? Bom, quero crer que sabia. Este último tipo de juiz, desculpem-me, não merece ser chamado de excelência.

E o mais interessante é que ambos os tipos apresentados acima ganham o meu salário (subsídio, remuneração, grana, faz-me-rir, seja o que for). A corrupção realmente está ligada ao quanto alguém recebe? Francamente, acredito que não.

Já tive intenção, aliás, forte intenção, de me tornar juiz. Estudar o quanto precisasse para ser aprovado no concurso para a magistratura, a fim de me tornar um julgador ao máximo justo. Perdi a vontade? Não. Quem sabe um dia seja agraciado com uma vaga no quinto constitucional? Sonhar é da natureza do ser humano, não é, Leo? Mas até lá, sinto essa vontade grande de advogar, de tentar contribuir para a feitura de justiça. Sim, tentar, porque Direito, meus queridos, não se enganem, é pura decisão, pura vontade. Não digo isso satisfeito, pelo contrário (se quiser, veja aqui o que penso: http://reparoscasuais.blogspot.com/2011/09/certo-ou-errado.html). Até lá, retomo, se é que este lá um dia vai chegar, acredito na força de bons advogados, de advogados também justos, de causídicos que se importam mais com a justiça do que com o dinheiro que os clientes possam pagar. Ah! A advocacia! Não me canso de exaltar este nobre ofício. Perdoem-me a vaidade.

Imagino que carregar sobre os ombros os problemas alheios não seja fácil. Não, não deve ser. Ter sob seus cuidados casos bastante complicados para decidir é tarefa para corajosos. Mas daí a acreditar que sua intrepidez deve ser exageradamente recompensada, é demais! Legalmente recompensada? Ok! Ilegalmente recompensada? Jamais! "Mas, ele dirá, tudo o que recebi está de acordo com as normas vigentes". Va bene! Um dos grandes problemas é não conseguir provar que não estava de acordo... pobres de nós, o povo, que assistimos a tudo isso embebidos numa impotência angustiante...

E ainda tem gente que acha que o CNJ não deve apurar ocorrências nos Tribunais pelo país afora. Ah, faça-me o favor!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...