quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Normais e loucos

Aconteceu hoje de eu me lembrar daquele pequeno discurso de Foucault, quando ele proferiu sua aula inaugural no Collège de France. Quem lê, entenda.

Avenida Rio Branco, quatro horas da tarde, multidão preparando-se para atravessar de um lado a outro. Dentre tantos normais, eis que surge um louco. Não que não se pudesse pensar que este cidadão encontrava-se em estado de ebriedade habitual. Mas por não ter a voz pastosa daqueles que permanecem sob o jugo do álcool, julguei-o louco.

Surge o sinal vermelho para os veículos que circulam pela via de rolamento; surge o sinal verde para os pedestres. Atravessamos todos, inclusive o louco. De repente, infringindo as leis de trânsito, um ciclista avança sobre a multidão. Os normais, silenciados, apenas se desviam do infrator, fazendo vista grossa para mais uma brasilidade. O louco, contudo, mostrando que possuía "uma razão mais razoável do que a das pessoas razoáveis", opõe-se àquela transgressão do normal-sobre-rodas, exasperado e indignado. Os normais, continuando a vida que segue, comentam, zombam e riem da situação.

Não vou dizer que, naquele instante em que o louco começou a "dizer uma verdade escondida", a "enxergar com toda ingenuidade [ou nem tão ingênuo assim] aquilo que a sabedoria dos outros não pode perceber [ou percebe, mas permanece alheia]", retomando, não vou dizer que naquele instante eu tenha me mantido distante da diversão. Mas, como que se o autor ali de cima me lembrasse, a situação me fez pensar. Precisamos enlouquecer.

Sermos normais é mantermos a ciência de determinadas ocorrências sem nos importarmos? Ou, se nos importamos, sem nos manifestarmos? Por que razão, oh! normais, teremos nós de aceitar impassivelmente as pequenas e as grandes incorreções? Por que achamos normal o erro, seja próprio, seja alheio? Por sermos normais? O louco não se importou com o constrangimento da zombaria, mas atuou como se a própria consciência social, que deveria limitar as ações contrárias às leis e aos objetivos coletivos, falasse em alta e sonante voz: você está errado.

E, do fundo da minha consciência entorpecida, veio a lembrança, não literal, obviamente: "é curioso constatar que durante séculos na Europa a palavra do louco não era ouvida, ou então, se era ouvida, era escutada como uma palavra de verdade".
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