quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Viver bem

A vida é muito boa! Mas a gente insiste em foder com ela. Bom, se bem que se fodêssemos com a vida, seria algo gostoso, prazeroso, com um bom gozo! Na verdade, a gente gosta é de brigar com a vida. E com as pessoas que ela nos apresenta. Tristeza!

Estamos sempre buscando viver bem. Procuramos um psicanalista, fazemos amizades, conquistamos amores, praticamos uma religião (ou apenas frequentamos uma instituição religiosa), lemos, pensamos, meditamos, trabalhamos... Mas estamos sempre encontrando motivos para atrapalhar todo o bem que essas atividades nos proporcionam. Poderiam alguns dizer que se não houvesse as pessoas, tudo isso seria ótimo. Ou, como já ouvi alguma vez não sei onde nem quando, "adoro a humanidade, só não suporto as pessoas". Mas como pode ser assim? É de gente que se compõe o mundo! A menos que você seja um eremita no deserto, viver é relacionar-se. O que parece ocorrer muitas vezes é que transferimos para os outros a responsabilidade de nossas escolhas, brigamos com a vida porque fulano ou beltrano fizeram isso comigo. E quando é que seremos autores de nossas histórias?

É difícil não ser afetado por acontecimentos, pessoas ou sentimentos que roubam a nossa paz e a nossa alegria. É alguém que achamos que amamos, é aquele colega de turma que se mostra mais capaz, é aquela viagem que não fizemos ou até mesmo aquele novíssimo smartphone (que faz a mesma coisa que o outro) que eu quero demais mas não posso ter. Expectativas frustradas e desejos insatisfeitos são companheiros de nossa jornada. Choramos querendo leite e tentamos vencer a morte, cada ato desse numa ponta da vida. Realmente, inúmeros eventos podem nos tirar da condição de bem viver. Podem, se eu deixar.

Quando algo acontece, cabe a nós optarmos por vermos um lado bom, um copo meio cheio, uma luz no fim do túnel, ou apontarmos o dedo para o outro, seja fato, seja pessoa, e dizer que a culpa é dele/dela. Perguntar por que isso ocorreu, creio, é bobagem. Claro que perquirir causas de eventos para tentar evitá-los mais tarde, se possível, é bom procedimento. Mas ficar lamentando com "porquês" e "para quês" não me parece boa saída. Para mim, já há algum tempo, prefiro perguntar "como". Como vou lidar com essa situação? Como posso sair dela ou, caso seja algo bom, como posso maximizar a satisfação de estar nela? O "como" substituiu muito bem o "por que"; pelo menos para mim funciona.

Em um livro sobre comunicação não-violenta (coisa que preciso aprender urgentemente), o autor nos convida a tentar, no ato do relacionar-se com o outro, assumir a responsabilidade pelo que sentimos e queremos e, ato contínuo, estabelecermos claramente, para nós e para os outros, aquilo que sentimos e queremos. Segundo ele, isso pode facilitar muito a nossa vida. Para isso, segundo eu mesmo a partir de agora, creio que o trabalho da comunicação não-violenta deve começar antes, na comunicação de mim comigo mesmo. Como posso dizer ao outro aquilo que desejo se ainda não sei bem o que desejo? Autoconhecimento tem sido apregoado há milênios, mas essa busca, admitindo algumas exceções, é deixada de lado, para depois, "um dia penso em mim"... Penso que para me conectar bem com o outro preciso me conectar bem comigo mesmo. Alguns precisam de ajuda profissional para isso, outros podem conseguir essa autoconexão sozinhos ou por meio de alguma religião. Independentemente da via tomada, conhecer-se a sim mesmo é passo importante para viver, para gozar com a vida.

Viver bem não deveria ser tão difícil. Brigar com a vida deveria ser exceção, deveria ser ato extremo. Já estamos no mundo para algum tipo de sofrimento, já passaremos inexoravelmente por dores; então qual o sentido de provocarmos aflições propositais? Qual a necessidade de penarmos voluntariamente? Não vejo razão para essas escolhas. Prefiro dizer que, a despeito de alguns inelutáveis sofrimentos, quero foder com a vida!

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Escolhas e responsabilidade

Estou lendo o livro A Cura de Schopenhauer, do Irvin Yalom. Já havia lido Quando Nietzsche Chorou, do mesmo autor, e, em razão de uma dica da minha ex-analista (algo por trás de uma simples dica???), estou lendo aquele livro. Ainda não terminei a leitura, mas uma frase me chamou a atenção até agora e, "por coincidência", já fez parte - e ainda faz - da minha análise tanto com aquela analista quanto com o atual. Em dado momento da narrativa, uma das pacientes do grupo de terapia da personagem principal conta algo de sua história e alguém lembra aquela frase que me tocou: "As escolhas excluem; para todo sim existe um não". E é, né?

Quando me mudei para Juiz de Fora, há doze anos, disse sim para esta cidade e para todas as oportunidades que teria aqui e, ao mesmo tempo, disse não para Sete Lagoas e para todos os momentos, pessoas, coisas e situações que poderia ter lá. Quando resolvi fazer o mestrado, para tentar alterar uma circunstância profissional, disse sim ao futuro e eventual título e falei momentaneamente não para a advocacia; e quando disse não para o término do mestrado e, por consequência, ao título e a tudo o que está a ele relacionado, disse sim para uma nova oportunidade na advocacia que tem me feito muito bem. Exemplos sobre sim e não concomitantes em razão de escolhas que fiz são inúmeros, mas não é necessário apresentar todos.

É interessante que uma frase tão simples passe despercebida por nós a todo momento. Por alguma razão, no nosso viver tão apressado não damos conta de que, se e quando eu escolho algo ou alguém, inexoravelmente eu deixo de lado outros tantos algos e alguéns. E o importante de ter essa compreensão é que sou responsável pela escolha que faço. Se estou em Juiz de Fora desenvolvendo minha vida, os nãos que falei para Sete Lagoas e todas as pessoas, coisas, situações que lá estão são responsabilidade minha. Se sofro por muitas vezes, ou quase todas, eu ficar de fora do encontro entre meus queridos amigos de lá, só posso atribuir esse sofrimento a mim mesmo. Não há arrastamento irresistível. Eu não tive de mudar para Juiz de Fora para estudar direito na matriz; eu escolhi me mudar para cá. Eu não tive de fazer o mestrado; eu escolhi cursá-lo; assim como eu não tive de interrompê-lo; eu escolhi não terminar o curso.

O interessante de se poder fazer escolhas é ser responsável por elas. Não posso culpar meus amigos por fazerem um churrasco em Sete Lagoas quando não estou lá. Eu escolhi estar aqui, eu sou responsável pela distância. Com minhas escolhas excluo algumas opções e incluo outra ou outras. Ainda que não deseje dizer não para algo ou alguém, o dizer sim para outro algo ou outro alguém me faz dizer não àqueles primeiros. Talvez o "não" dito não seja mais importante que o "sim", mas ele faz parte das excludentes escolhas. Dito de outra forma, eu não queria dizer não para os meus amigos em Sete Lagoas (e nunca direi, pois fazem parte da minha vida de forma intensa e bela), mas ao dizer sim para a faculdade de direito em Juiz de Fora, acabei tendo de arcar com as consequências de vir para cá.

É pena que muitas vezes não tenhamos tão claro esse pensamento em nós. É pena que muitas vezes tenhamos de conviver com pessoas que sequer percebem essa relação entre as escolhas, a exclusão e a responsabilidade. Mas é verdade que a vida ensina. E aprender que quando escolho eu excluo e que só posso eu mesmo ser responsável pela minha opção é libertador.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Fazer o que se gosta

Fazer o que se gosta ou gostar do que se faz? Dúvida terrível que deve atormentar muita gente. Devo fazer o que eu gosto, mesmo que isso não me traga retorno financeiro, ou fazer algo que "dá dinheiro" e tentar gostar disso?

Há algum tempo vi no facebook um vídeo que dizia sobre deixar as pessoas serem felizes com aquilo que desejam fazer. Se quer ser palhaço de circo, na hipótese de ainda existir circo, que vá. Quem dirá isso para um filho? Duvido que sejamos muitos. Estamos todos mais ou menos acorrentados à necessidade de estabilidade, ao tormento da rotina e do hábito; estamos estagnados na forçosa sujeição de sermos sujeitos, sujeitados pela imposição do ser-quem-se-deve-ser. Escolher opções fora do padrão não faz parte desse modo de vida "normal". A zona de conforto, que muitas vezes retira de nós a vida-que-poderíamos-ter-levado, maltrata as nossas potencialidades.

Fazer o que se gosta independentemente de retorno financeiro. Só mesmo se você for um eremita! No mundo real, das necessidades do corpo e da alma, precisamos de dinheiro. Muito? Pouco? Aí é com cada um. Posso tentar viver uma vida simples, ganhando muito dinheiro, ou posso tentar viver uma vida simples, ganhando pouco. A escolha faz parte de mim, faz parte de cada ser. Fazer o que se gosta é mais gostoso; faz-se com amor, com paixão, com tesão. Faz-se sem perceber o tempo passar, sem obrigação. Faz-se pelo simples fato de se fazer. Fazer o que se gosta esgota a nossa criatividade, suga as forças mais belas que podemos ter. E tudo isso de modo belo, sublime até.

Fazer o que não se gosta só mesmo pelo dinheiro. Vida vazia. Despertador, transporte, suor, lágrima, rotina, recalque, submissão, demandas. Trabalhar com algo que não traz felicidade, que não estimula a paixão, é desperdiçar o que temos de melhor. É claro que é possível, com tempo e muita boa vontade, acabar gostando do que se começou a fazer apenas pelo dinheiro; não há problema quanto a isso, mas é preciso pensar e acreditar que podemos nos emancipar, nos tornar artífices da nossa existência, deixando fluir nossas potencialidades independentemente do dinheiro que ganhamos.

Algumas vezes, há a coincidência de fazermos algo de que gostamos e ganharmos algum dinheiro com essa atividade. Mas é sempre necessário refletir sobre o que fazemos, como fazemos, por que e para que fazemos. Ainda que tudo possa parecer bom, é sempre imprescindível pensar se ainda fazemos o que gostamos e ganhamos dinheiro com isso ou se ganhamos dinheiro e estamos automatizados no que fazemos.

Fazer o que se gosta. Ter coragem de romper as fronteiras e as barreiras que nos prendem, nos limitam. Fugir das amarras que nos atam a sofrimentos profissionais, quebrar os ídolos que elevamos diante de nós. Reduzir falsas necessidades e conseguir chegar mais longe e mais profundo na realização de si. Sonho? Talvez. Mas desejo isso para mim ainda hoje.


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pautas constitucionais

Muitos acusaram os manifestantes dos movimentos populares pelo Brasil afora de não terem pautas ou, se as tinham, havia em abundância e de modo desconcertado. Vamos falar de pautas constitucionais, então. Pautas que, por constarem do texto da mais elevada lei do país, dizem respeito a todos indistintamente. São as nossas pautas constitucionais (quem quiser conferir o texto integral da Constituição da República, clique aqui):

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;


Queremos que a soberania da República seja respeitada e imposta contra atos atentatórios de outros Estados, instituições e/ou organizações esportivas etc.
Queremos a garantia da cidadania e da dignidade humana tanto em passeatas no centro das cidades quanto nas favelas.

Art. 2º São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.

Queremos que o Legislativo seja independente do Executivo, acabando com essa espúria prática do presidencialismo de coalizão. Queremos que os candidatos a ministros do STF não tenham que mendigar pelos corredores do Planalto e do Congresso.

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.


Queremos verdadeiramente uma sociedade nos moldes desses objetivos fundamentais da República, especialmente a erradicação da pobreza e a redução ao mínimo aceitável das desigualdades sociais.
Queremos que os projetos de leis ofensivos aos direitos dos homossexuais sejam extintos imediatamente.

Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:
IV - salário mínimo , fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;


Queremos efetivação dos direitos sociais, com a entrega específica da prestação com qualidade dos serviços públicos.
Queremos um salário mínimo vigente para toda a população brasileira, o qual atenda aos critérios estabelecidos na Constituição.

Art. 101. O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros, escolhidos dentre cidadãos com mais de trinta e cinco e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

Queremos ministros que realmente tenham "notável saber jurídico" e não aqueles que só foram parar no STF porque tinham as costas quentes.

Art. 153. Compete à União instituir impostos sobre:
VII - grandes fortunas, nos termos de lei complementar.


Queremos que os donos das grandes fortunas paguem imposto específico, o ÚNICO imposto de competência da União que até hoje, passados vinte e cinco anos da promulgação da Constituição, não foi instituído.

Art. 184. Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social, mediante prévia e justa indenização em títulos da dívida agrária, com cláusula de preservação do valor real, resgatáveis no prazo de até vinte anos, a partir do segundo ano de sua emissão, e cuja utilização será definida em lei.

Queremos que seja efetivada a reforma agrária de modo correto e justo, beneficiando inúmeros trabalhadores rurais e famílias que podem utilizar a terra para sustento e desenvolvimento econômico do país.

Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Queremos um SUS no qual todos possam encontrar médicos competentes, para prevenção ou tratamento, sem que tenhamos de pagar plano de saúde e, ainda assim, sermos tratados como pacientes do SUS. Queremos que essa maldição que pesa sobre o SUS seja extinta para que todos os brasileiros se orgulhem do nosso sistema público de saúde.

Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.
Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:
V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com Ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas;
VII - garantia de padrão de qualidade.
VIII - piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal.


Queremos a educação vista pelos constituintes, emancipadora, possibilitadora do desenvolvimento da pessoa, a fim de que milhões de brasileiros possam encontrar na educação a saída da sua miséria econômica a moral.
Queremos que os professores sejam respeitados e valorizados, para que tenham incentivo de buscar o aprimoramento profissional e pessoal, dedicando-se com vontade ao ensino dos brasileiros. Queremos o plano de carreira e o piso salarial mínimo efetivamente cumpridos.

É claro que eu poderia destacar inúmeros outros direitos garantidos pela Constituição aos brasileiros. Mas, se é para começar a sermos cidadãos, essas pautas acima são um ótimo ponta-pé inicial. Ao fim e ao cabo, o que a gente quer é que a Constituição não seja um pedaço de papel em que depositamos nossas esperanças. Queremos que a Constituição seja cumprida e que nossos direitos sejam efetivamente concedidos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O "dono do Centro"

As andanças por Juiz de Fora nos proporcionam muitas observações sobre os nossos Centros Espíritas e, claro, sobre os nossos (ou nós) espíritas. Algumas são bastante interessantes. Tem Centro em que as pessoas se conhecem pelos nomes! (E isso não é tão natural como acredito que deveria ser. Não. Alguns Centros são tão grandes que duvido existirem mais de meia dúzia que se conheçam - e de fato não existem. Aquele negócio que Kardec escreve em O Livro dos Médiuns sobre as sociedades espíritas, nestes centrões, esqueça!) Mas, voltando ao positivo antes de falar dos reparos, naqueles Centros em que as pessoas se conhecem pelos nomes fica evidente o calor humano, o carinho entre as pessoas, a vontade de realmente fazer sentido a pergunta: "tudo bem?". Isso é gostoso! E, como ali as pessoas se preocupam umas com outras, pois há laços de comunidade, ali também os visitantes somos recebidos de modo muito afetuoso.

Há também Centros em que resta clara a escolha por Kardec. Nada de ismos por ali. Nada de chiquismo, emmanuelismo, divaldismo ou quejandos. Nem fotos - de encarnados ou desencarnados - nem poemas "mediúnicos", nem pinturas "mediúnicas". A opção foi Kardec, desde a simplicidade da edificação e do mobiliário até a seriedade dos estudos. Isso é importante. Existem, ainda, aqueles Centros em que o calor humano nem é tão forte, mas o trabalho realizado em prol de todos nós necessitados do corpo e da alma é feito com tamanha boa vontade que o calor vem de outras dimensões. Afinal, todos cooperamos daqui e de lá.

É verdade que existem outros exemplos de coisas boas nos Centros Espíritas juizforanos, como aquele Centro em que o sorriso aparece sempre estampado no rosto dos presentes (este é um dos que mais gosto); aquele outro em que vários amigos nossos trabalham (e, neste caso, é evidente o nosso gostar de lá). Enfim, muitos são os elogios. Porém, alguns reparos podem ser feitos, até mesmo para que um dia sejam inexistentes.

Ontem, ao chegar a um Centro aqui em Juiz de Fora, fui apresentado a uma pessoa nos seguintes termos (suprimo os nomes do "dono do Centro" e do próprio Centro, por razões óbvias): Coordenador das Atividades (CA): Olá! Seja bem vindo! Eu: Obrigado. CA: Você conhece o X? Eu: Não. CA: Ah! Este você tinha que conhecer. Famoso em Juiz de Fora. Um dos mais antigos do Espiritismo aqui. Ele é o "dono do Centro"! Eu: ...! Por dentro eu me perguntei: dono do Centro? Como assim? E, antes que venham os advogados defender, não, ele não estava brincando. Ele falou isso para outras pessoas e com tal reverência que não havia dúvidas: o CA via o "dono do Centro" naquela pessoa. Além disso, quando o X me perguntou "de onde eu era", embora minha vontade fosse dizer "do universo", "da Terra", "de Sete Lagoas", sei lá, entendi o contexto e respondi: "trabalho no [Centro Espírita] Amor ao Próximo". X: Ah, sim! O Centro do Fulano e da Beltrana! Eu, mais uma vez: ...! E por dentro: O Centro do Fulano e da Beltrana? Desde quando eles são "donos do Centro"? Porque, convenhamos, se acabara de dizer que ele era o "dono" daquele Centro, certamente ele atribuía propriedade aos dois nomes que citou. Ainda que fosse uma piada, que eu não entendi, o movimento espírita está repleto de pessoas que pensam assim: Fulano é o "dono do Centro", tanto os que pretensamente são "donos do Centro" quanto os que "legitimam" essa "propriedade".

Meu desejo, naquele instante, era responder: não, senhor, não sou do Centro do Fulano e da Beltrana, até porque nem os conheço. E, oh, se não os conheço e vou lá todo sábado participar de uma atividade bastante importante do Centro, é porque eles não são tão donos assim. Porque é o "olho do dono que engorda o boi", e o boi está engordando bem. Dito de outro modo, os trabalhos se desenvolvem e crescem em qualidade a cada dia, mas os "donos" do Centro não estão lá.

De onde vem esse sentimento de propriedade dos Centros Espíritas? Imagino que de resquícios de outras eras, em que cada um era dono de sua paróquia. Ou não. Pode decorrer de puro orgulho, por parte de uns, e de pura tolice, por parte de outros. Os uns que não afastam de pronto expressões como "chefe", "patrão", "dono" dentro de um Centro Espírita, e os outros que não param com a estulta mania de usar aquelas expressões e de legitimá-las. Para um que se considera "dono do Centro" existem muitos que legitimam esse absurdo poder.

Mas assim como a crítica deve atingir não o brasileiro que fura fila, mas, sim, aqueles outros tantos brasileiros que estão na fila e que não se manifestam contrariamente ao mal educado, também aqui o reparo não se destina ao "dono do Centro". Este, "um dos mais antigos do Espiritismo aqui", pode até não incentivar a visão de "dono do Centro" - ou pode, ao se omitir quando assim é chamado. Os outros, que incentivam em si mesmos e nos demais frequentadores do Centro a ideia do "dono" do pedaço, são os mais condenáveis. Que necessidade de terem líderes, pastores, condutores é essa? Ou seria apenas uma reverência irracional o que motivaria chamar Fulano ou Beltrana de "donos do Centro"?

Aqui no Reparos não gosto de citar. Aqui, a palavra é minha, o espaço é meu, as ideias são "minhas". Mas desta vez, peço licença e perdão aos raros leitores e faço uma pequena extensa citação de José Herculano Pires, do livro O Centro Espírita, pois é grandioso reconhecer nossa pequenez diante de uma voz tão clara como a dele:

"Temos no Brasil – e isso é um consenso universal – o maior, mais ativo e produtivo movimento espírita do planeta. A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos, em todo este vasto continente espírita, é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas, formando por toda parte núcleos místicos e portanto fanáticos, desligados da realidade imediata. (...) Mais do que subnutrição do povo, com seu cortejo trágico de endemias devastadoras , o igrejismo salvacionista depauperou a inteligência popular, com seu cortejo de carreirismo político – religioso, idolatria mediúnica, misticismo larvar, o que é pior, aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres farisaicos, estufados de vaidade e arrogância. São os guardiães dos apriscos do templo, instruídos para rejeitar os animais sacrificiais impuros, exigindo dos beatos a compra de oferendas puras nos apriscos sacerdotais. Essa tendência mística popular, carregada de superstições seculares, favorece a proliferação de pregadores santificados, padres vieiras sem estalo, tribunos de voz empostada e gesticulação ensaiada. (...) As grandes instituições Espíritas Brasileiras e as Federações Estaduais investem-se por vontade própria de autoridade que não possuem nem podem possuir, marcadas que estão por desvios doutrinários graves, como no caso do roustainguismo da FEB e das pretensões retrógradas de grupelhos ignorantes de adulterados."

quinta-feira, 7 de março de 2013

Dita democracia dura

Renan Calheiros assumiu a presidência do Senado Federal, sucedendo o eterno presidente da mesma casa, José Sarney. Pastor Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. O primeiro, lá, acusado de um milhão de crimes; o segundo, cá, patentemente homofóbico, racista e estelionatário de cadeirantes e tantos pobres. Dois representantes do povo, eleitos por voto popular. Duas pessoas publicamente desagradáveis e intragáveis. Dois parlamentares conduzidos, pelo voto de outros representantes do povo, a cargos de comando em instituições supostamente sérias.

O que pensar disso tudo?

Nunca fui bom em História. Aliás, meus professores não fizeram despertar em mim o gosto por compreender os acontecimentos passados como forma de efetivamente organizar o mundo atual. Para mim, nas cadeiras dos colégios, História era aquela disciplina em que eu tinha que decorar um monte de "causas" de determinados acontecimentos e escrevê-las nas provas. Nem isso eu conseguia. Tinha verdadeira preguiça de História... mas vi que não tinha preguiça da História. Os anos se passaram e, por força de contingências acadêmicas, acabei tendo de conhecer e compreender a História e o gosto foi despertado. Ainda assim, sou daqueles que consegue ver a História composta por blocos de fatos. Não vivo - talvez nem seja possível - as cotidianas ocorrências que culminaram em tal ou qual grandioso acontecimento. Sei que todos os marcantes eventos históricos foram constituídos por pequenas parcelas de fatos, mas o bloco da Revolução Francesa ou da II Grande Guerra, na minha cabeça, faz mais sentido, com suas causas e consequências.

Aí entram os atuais eventos. Toda vez que algo ocorre, no Brasil ou no restante do mundo, me projeto na vida de um leitor de livros de História do século XXXI, no ano de 3013. Como ele veria essas constantes afrontas - que nós pensamos ser afrontas - à democracia brasileira? Conseguiria ele compreender que representantes eleitos pelo povo podem ser penalmente responsabilizados e continuar a estar no poder? Seria inteligível, para esse leitor de cem anos a vir, a existência de um deputado evangélico-pastor-homofóbico-racista e, mais, presidente de uma comissão criada para defender o direito daqueles que sofrem a inobservância de direitos para todos? Como ele perceberia o Brasil de 2013?

Assim como nunca fui bom em História, também não o sou em qualquer outras dessas contemporâneas disciplinas compartimentadas. Mas me arrisco. Talvez, no bloco histórico da maturação da democracia brasileira pós-governo militar, não saibamos efetivamente viver a democracia. Só é democracia se o meu ganhar? Ou somente podemos admitir democrático quando a minoria ganha o poder? Aceitar que há formas de vida mais singelas e, por que não, estúpidas, é também ser amante da democracia. Se existe gente, e muita gente, que vota em pessoas como aquelas mencionadas e se existe gente que se mobiliza a ponto de forma uma bancada religiosa no parlamento nacional, não seria democrático aceitar que elas têm a força do povo e força política para conquistar o poder?

Aceitar e compreender esse bloco que o leitor de 3013 está vendo não significa que devemos gostar dele. Não me agrada ver políticos explicitamente corruptos, ladrões, criminosos de todo tipo sendo eleitos e reeleitos por voto de um povo sem instrução e sem educação. Não me agrada ver uma comissão - que tem como fundamento de existir a defesa de direitos adquiridos com base em lutas travadas exatamente contra as mesmas pessoas que agora tomam a presidência - comandada por religiosos fundamentalistas, cuja prática religiosa está exageradamente distante daquele de quem gritam falam tanto o nome. Não me agrada ver o país sendo arrastado a passos largos para uma ditadura moralista, conservadora e preconceituosa. Mas, de certo modo, tenho que aceitar democraticamente as derrotas que sofro nos meus ideais.

Sei que é difícil conciliar minhas pretensões com a democracia. Porém tenho que saber que, somente por meio da batalha ideológica, da luta pela educação, das inúmeras e incansáveis tentativas de esclarecimento de tanta gente que se encontra encarcerada pelo mal-compreendido medo de fogo e rangeres de dente, é que poderemos pouco a pouco ter uma vera democracia. Enquanto somente aquelas pessoas conseguirem se mobilizar em torno de um nome comum e um objetivo comum, nós outros, todos nós, perderemos democraticamente.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Desabou

"Meu mundo caiu e me fez ficar assim", "mas eu que aprenda a levantar". Jamais teria ouvido esta música, se não fosse a minissérie da redegrobo. Tocada infinitas vezes, acabei ficando com essa letra na cabeça. E não é que ela faz algum sentido quando algo acontece?

Todos os raros leitores deste blog sabem que eu tenho certa aversão à matriz e que não me contento com o que há além do arco-íris, mas convenhamos que ter olhos para a realidade, ainda que a visão seja um pouco turva, não é fácil para ninguém. E não é porque às vezes dói, às vezes nos sentimos como a personagem da canção: o mundo parece ter caído. Sobretudo para quem está acostumado como o pensamento jurídico tradicional e com todas as ilusórias decorrências dele, vez em quando o mundo parece desabar.

Ah! mas não tem jeito! É bom que desabe mesmo! É bom que tudo desmorone a olhos vistos, para que possamos, talvez, pensar algo diferente. Acreditar que julgadores apresentam seus motivos para decidir é quase quixotesco. Desconhecer que os de baixo falam o que os de cima já disseram e que estes, por sua vez, ficam com o que aqueles falaram, num ciclo vicioso e maligno, pode ser bom... para quem não quer se preocupar a quantas anda nosso poder julgador. Mas, o que é isso, não estou sendo realista demais? Sim. E que bom início para tentar mudar algo vendo o que realmente existe. Ou não.

O mundo daqueles que se formatam na faculdade de direito certamente vai cair. Isso vai acontecer quando ele perceber que, além das aparências, há um mundo tão desanimador quanto aquele vivenciado pelos políticos profissionais. A certeza de que, por mais que se batalhe por um direito mais justo, é a partir das santificadas vozes magistrais que o direito é posto faz com que busquemos de alguma forma alterar o atual panorama. Fácil? Não. Impossível? Também não. Para começar, é preciso perceber que imparcialidade não faz parte do rol de virtudes. Neutralidade, tampouco. Alguém se engana sobre a colonização do julgar pelo político ou pelo dinheiro? Não faça isso... a menos que queira seguir sem se preocupar.

Assim como na música o mundo cai e acabamos ficando "assim", também devemos aprender a nos levantar. Por pior que pareça, ainda é possível mudar algo. Tenho essa esperança. Hoje? Amanhã? Não sei. Algum dia. Não posso ficar parado olhando as misérias deste poder, enchendo linhas e mais linhas para dizer que ele é ótimo, porque não, não é. Hoje tenho pena daqueles que se encontram nos bancos da Matriz. Pensar que toda aquela baboseira que poucos entendem antes de falar vai ser reproduzida cegamente. E é muito provável que não haja ninguém para salvar algumas almas... Mas que posso fazer? Certamente ainda há os "veteranos" dizendo que sociologia, política e filosofia são matérias bobas, que dá para passar sem ler nada. Como se de direito alguém lesse além de cadernos "otariografados".

Enfim, desabou? Levante-se e pense mais, muito mais!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Frágil

Em um instante tudo muda. Estava feliz, divertindo-me com meus amigos. Era festa, alegria! Uma foto, um registro. Como um lampejo, cá estou de volta. O que fiz? Faltou fazer algo? Quem amei? Quem deixei de amar? Ajudei alguém ou piorei a situação dele?

Alguns acontecimentos realmente são consternadores. Causam em nós um misto de tristeza, assombro e, por que não, medo. Ver algumas centenas de vidas serem instantaneamente ceifadas realmente me faz pensar. Não pensar em quem é o culpado ou quem deverá pagar. Para isso existe muita gente, competente ou diletante. Acontecimentos assim me fazem pensar na vida, na minha vida.

Pedi para vir - espero! Programei-me para fazer melhor do que havia feito em outras oportunidades. Comecei bem, sendo apenas um bebê, mas logo que me vi já estava fazendo errado. Corrigendas, broncas etc. Parece que nada disso me possibilitou maturar o senso moral. A culpa, talvez, tenha sido o móvel muitas vezes. Crescendo, aprendendo, estudando e tentando aplicar o conhecimento, vi que era possível ser bom sem ser bobo. Mas ainda assim me pergunto: faço tudo o que devo fazer?

Devo fazer. Me parece ser algo mandatório. Sim, talvez. Uma ordem ética que me guia, porém dela me afasto muitas vezes. Afinal, ser bom dá trabalho e não faz sucesso. Já ir contra esse mandamento ético é muito mais fácil e arranca até risadas! O que fiz? O que faltou fazer? Essas perguntas certamente irão ecoar nas mentes de todos nós um dia.

A fragilidade da vida deveria ser motivo para aproveitarmos cada segundo de respiração. Abraçar o mundo - o nosso mundo possível - com todo o carinho e cuidado que possamos dedicar. Nascemos com a única certeza de que morreremos e, ainda assim, deixamos as coisas importantes para depois. Corremos atrás do vento por pura vaidade. Entramos em uma roda viva que nos esmaga e não nos permite ser. Fazemos discursos, compartilhamos mensagens, enviamos emails, lemos livros... tudo isso dizendo sobre felicidade. Mas deixamos de pensar sobre a felicidade; deixamos de ver que essa felicidade discursada, compartilhada virtualmente, lida só é possível se realmente pretendermos mudar algo. Culpar o "sistema" (seja lá o que isso for) ou a "estrutura" é um modo simples de dizer "não quero". O sistema e a estrutura são compostos por homens e mulheres. Homens e mulheres que só por existirem mereciam não estar dominados pelo sistema e pela estrutura. E, se quiserem, podem deixar de ser assim.

A felicidade buscada nesta frágil vida também não pode derivar apenas de um sentimento egoísta de satisfazer apenas a si mesmo. Essa felicidade, que um dia nos questionaremos mais se proporcionamos do que se tivemos, é aquela dividida com todos ou, ao menos, com muitos. Se num instante tudo pode mudar, tudo nesta vida pode acabar, o mandamento ético pode contribuir para a felicidade além da vida.

É... A vida é realmente frágil e, por isso, devemos dela cuidar muito bem!
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