quinta-feira, 7 de março de 2013

Dita democracia dura

Renan Calheiros assumiu a presidência do Senado Federal, sucedendo o eterno presidente da mesma casa, José Sarney. Pastor Marco Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. O primeiro, lá, acusado de um milhão de crimes; o segundo, cá, patentemente homofóbico, racista e estelionatário de cadeirantes e tantos pobres. Dois representantes do povo, eleitos por voto popular. Duas pessoas publicamente desagradáveis e intragáveis. Dois parlamentares conduzidos, pelo voto de outros representantes do povo, a cargos de comando em instituições supostamente sérias.

O que pensar disso tudo?

Nunca fui bom em História. Aliás, meus professores não fizeram despertar em mim o gosto por compreender os acontecimentos passados como forma de efetivamente organizar o mundo atual. Para mim, nas cadeiras dos colégios, História era aquela disciplina em que eu tinha que decorar um monte de "causas" de determinados acontecimentos e escrevê-las nas provas. Nem isso eu conseguia. Tinha verdadeira preguiça de História... mas vi que não tinha preguiça da História. Os anos se passaram e, por força de contingências acadêmicas, acabei tendo de conhecer e compreender a História e o gosto foi despertado. Ainda assim, sou daqueles que consegue ver a História composta por blocos de fatos. Não vivo - talvez nem seja possível - as cotidianas ocorrências que culminaram em tal ou qual grandioso acontecimento. Sei que todos os marcantes eventos históricos foram constituídos por pequenas parcelas de fatos, mas o bloco da Revolução Francesa ou da II Grande Guerra, na minha cabeça, faz mais sentido, com suas causas e consequências.

Aí entram os atuais eventos. Toda vez que algo ocorre, no Brasil ou no restante do mundo, me projeto na vida de um leitor de livros de História do século XXXI, no ano de 3013. Como ele veria essas constantes afrontas - que nós pensamos ser afrontas - à democracia brasileira? Conseguiria ele compreender que representantes eleitos pelo povo podem ser penalmente responsabilizados e continuar a estar no poder? Seria inteligível, para esse leitor de cem anos a vir, a existência de um deputado evangélico-pastor-homofóbico-racista e, mais, presidente de uma comissão criada para defender o direito daqueles que sofrem a inobservância de direitos para todos? Como ele perceberia o Brasil de 2013?

Assim como nunca fui bom em História, também não o sou em qualquer outras dessas contemporâneas disciplinas compartimentadas. Mas me arrisco. Talvez, no bloco histórico da maturação da democracia brasileira pós-governo militar, não saibamos efetivamente viver a democracia. Só é democracia se o meu ganhar? Ou somente podemos admitir democrático quando a minoria ganha o poder? Aceitar que há formas de vida mais singelas e, por que não, estúpidas, é também ser amante da democracia. Se existe gente, e muita gente, que vota em pessoas como aquelas mencionadas e se existe gente que se mobiliza a ponto de forma uma bancada religiosa no parlamento nacional, não seria democrático aceitar que elas têm a força do povo e força política para conquistar o poder?

Aceitar e compreender esse bloco que o leitor de 3013 está vendo não significa que devemos gostar dele. Não me agrada ver políticos explicitamente corruptos, ladrões, criminosos de todo tipo sendo eleitos e reeleitos por voto de um povo sem instrução e sem educação. Não me agrada ver uma comissão - que tem como fundamento de existir a defesa de direitos adquiridos com base em lutas travadas exatamente contra as mesmas pessoas que agora tomam a presidência - comandada por religiosos fundamentalistas, cuja prática religiosa está exageradamente distante daquele de quem gritam falam tanto o nome. Não me agrada ver o país sendo arrastado a passos largos para uma ditadura moralista, conservadora e preconceituosa. Mas, de certo modo, tenho que aceitar democraticamente as derrotas que sofro nos meus ideais.

Sei que é difícil conciliar minhas pretensões com a democracia. Porém tenho que saber que, somente por meio da batalha ideológica, da luta pela educação, das inúmeras e incansáveis tentativas de esclarecimento de tanta gente que se encontra encarcerada pelo mal-compreendido medo de fogo e rangeres de dente, é que poderemos pouco a pouco ter uma vera democracia. Enquanto somente aquelas pessoas conseguirem se mobilizar em torno de um nome comum e um objetivo comum, nós outros, todos nós, perderemos democraticamente.
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