quinta-feira, 9 de maio de 2013

O "dono do Centro"

As andanças por Juiz de Fora nos proporcionam muitas observações sobre os nossos Centros Espíritas e, claro, sobre os nossos (ou nós) espíritas. Algumas são bastante interessantes. Tem Centro em que as pessoas se conhecem pelos nomes! (E isso não é tão natural como acredito que deveria ser. Não. Alguns Centros são tão grandes que duvido existirem mais de meia dúzia que se conheçam - e de fato não existem. Aquele negócio que Kardec escreve em O Livro dos Médiuns sobre as sociedades espíritas, nestes centrões, esqueça!) Mas, voltando ao positivo antes de falar dos reparos, naqueles Centros em que as pessoas se conhecem pelos nomes fica evidente o calor humano, o carinho entre as pessoas, a vontade de realmente fazer sentido a pergunta: "tudo bem?". Isso é gostoso! E, como ali as pessoas se preocupam umas com outras, pois há laços de comunidade, ali também os visitantes somos recebidos de modo muito afetuoso.

Há também Centros em que resta clara a escolha por Kardec. Nada de ismos por ali. Nada de chiquismo, emmanuelismo, divaldismo ou quejandos. Nem fotos - de encarnados ou desencarnados - nem poemas "mediúnicos", nem pinturas "mediúnicas". A opção foi Kardec, desde a simplicidade da edificação e do mobiliário até a seriedade dos estudos. Isso é importante. Existem, ainda, aqueles Centros em que o calor humano nem é tão forte, mas o trabalho realizado em prol de todos nós necessitados do corpo e da alma é feito com tamanha boa vontade que o calor vem de outras dimensões. Afinal, todos cooperamos daqui e de lá.

É verdade que existem outros exemplos de coisas boas nos Centros Espíritas juizforanos, como aquele Centro em que o sorriso aparece sempre estampado no rosto dos presentes (este é um dos que mais gosto); aquele outro em que vários amigos nossos trabalham (e, neste caso, é evidente o nosso gostar de lá). Enfim, muitos são os elogios. Porém, alguns reparos podem ser feitos, até mesmo para que um dia sejam inexistentes.

Ontem, ao chegar a um Centro aqui em Juiz de Fora, fui apresentado a uma pessoa nos seguintes termos (suprimo os nomes do "dono do Centro" e do próprio Centro, por razões óbvias): Coordenador das Atividades (CA): Olá! Seja bem vindo! Eu: Obrigado. CA: Você conhece o X? Eu: Não. CA: Ah! Este você tinha que conhecer. Famoso em Juiz de Fora. Um dos mais antigos do Espiritismo aqui. Ele é o "dono do Centro"! Eu: ...! Por dentro eu me perguntei: dono do Centro? Como assim? E, antes que venham os advogados defender, não, ele não estava brincando. Ele falou isso para outras pessoas e com tal reverência que não havia dúvidas: o CA via o "dono do Centro" naquela pessoa. Além disso, quando o X me perguntou "de onde eu era", embora minha vontade fosse dizer "do universo", "da Terra", "de Sete Lagoas", sei lá, entendi o contexto e respondi: "trabalho no [Centro Espírita] Amor ao Próximo". X: Ah, sim! O Centro do Fulano e da Beltrana! Eu, mais uma vez: ...! E por dentro: O Centro do Fulano e da Beltrana? Desde quando eles são "donos do Centro"? Porque, convenhamos, se acabara de dizer que ele era o "dono" daquele Centro, certamente ele atribuía propriedade aos dois nomes que citou. Ainda que fosse uma piada, que eu não entendi, o movimento espírita está repleto de pessoas que pensam assim: Fulano é o "dono do Centro", tanto os que pretensamente são "donos do Centro" quanto os que "legitimam" essa "propriedade".

Meu desejo, naquele instante, era responder: não, senhor, não sou do Centro do Fulano e da Beltrana, até porque nem os conheço. E, oh, se não os conheço e vou lá todo sábado participar de uma atividade bastante importante do Centro, é porque eles não são tão donos assim. Porque é o "olho do dono que engorda o boi", e o boi está engordando bem. Dito de outro modo, os trabalhos se desenvolvem e crescem em qualidade a cada dia, mas os "donos" do Centro não estão lá.

De onde vem esse sentimento de propriedade dos Centros Espíritas? Imagino que de resquícios de outras eras, em que cada um era dono de sua paróquia. Ou não. Pode decorrer de puro orgulho, por parte de uns, e de pura tolice, por parte de outros. Os uns que não afastam de pronto expressões como "chefe", "patrão", "dono" dentro de um Centro Espírita, e os outros que não param com a estulta mania de usar aquelas expressões e de legitimá-las. Para um que se considera "dono do Centro" existem muitos que legitimam esse absurdo poder.

Mas assim como a crítica deve atingir não o brasileiro que fura fila, mas, sim, aqueles outros tantos brasileiros que estão na fila e que não se manifestam contrariamente ao mal educado, também aqui o reparo não se destina ao "dono do Centro". Este, "um dos mais antigos do Espiritismo aqui", pode até não incentivar a visão de "dono do Centro" - ou pode, ao se omitir quando assim é chamado. Os outros, que incentivam em si mesmos e nos demais frequentadores do Centro a ideia do "dono" do pedaço, são os mais condenáveis. Que necessidade de terem líderes, pastores, condutores é essa? Ou seria apenas uma reverência irracional o que motivaria chamar Fulano ou Beltrana de "donos do Centro"?

Aqui no Reparos não gosto de citar. Aqui, a palavra é minha, o espaço é meu, as ideias são "minhas". Mas desta vez, peço licença e perdão aos raros leitores e faço uma pequena extensa citação de José Herculano Pires, do livro O Centro Espírita, pois é grandioso reconhecer nossa pequenez diante de uma voz tão clara como a dele:

"Temos no Brasil – e isso é um consenso universal – o maior, mais ativo e produtivo movimento espírita do planeta. A expansão do Espiritismo em nossa terra é incessante e prossegue em ritmo acelerado. Mas o que fazemos, em todo este vasto continente espírita, é um imenso esforço de igrejificar o Espiritismo, de emparelhá-lo com as religiões decadentes e ultrapassadas, formando por toda parte núcleos místicos e portanto fanáticos, desligados da realidade imediata. (...) Mais do que subnutrição do povo, com seu cortejo trágico de endemias devastadoras , o igrejismo salvacionista depauperou a inteligência popular, com seu cortejo de carreirismo político – religioso, idolatria mediúnica, misticismo larvar, o que é pior, aparecimento de uma classe dirigente de supostos missionários e mestres farisaicos, estufados de vaidade e arrogância. São os guardiães dos apriscos do templo, instruídos para rejeitar os animais sacrificiais impuros, exigindo dos beatos a compra de oferendas puras nos apriscos sacerdotais. Essa tendência mística popular, carregada de superstições seculares, favorece a proliferação de pregadores santificados, padres vieiras sem estalo, tribunos de voz empostada e gesticulação ensaiada. (...) As grandes instituições Espíritas Brasileiras e as Federações Estaduais investem-se por vontade própria de autoridade que não possuem nem podem possuir, marcadas que estão por desvios doutrinários graves, como no caso do roustainguismo da FEB e das pretensões retrógradas de grupelhos ignorantes de adulterados."
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