quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Escolhas e responsabilidade

Estou lendo o livro A Cura de Schopenhauer, do Irvin Yalom. Já havia lido Quando Nietzsche Chorou, do mesmo autor, e, em razão de uma dica da minha ex-analista (algo por trás de uma simples dica???), estou lendo aquele livro. Ainda não terminei a leitura, mas uma frase me chamou a atenção até agora e, "por coincidência", já fez parte - e ainda faz - da minha análise tanto com aquela analista quanto com o atual. Em dado momento da narrativa, uma das pacientes do grupo de terapia da personagem principal conta algo de sua história e alguém lembra aquela frase que me tocou: "As escolhas excluem; para todo sim existe um não". E é, né?

Quando me mudei para Juiz de Fora, há doze anos, disse sim para esta cidade e para todas as oportunidades que teria aqui e, ao mesmo tempo, disse não para Sete Lagoas e para todos os momentos, pessoas, coisas e situações que poderia ter lá. Quando resolvi fazer o mestrado, para tentar alterar uma circunstância profissional, disse sim ao futuro e eventual título e falei momentaneamente não para a advocacia; e quando disse não para o término do mestrado e, por consequência, ao título e a tudo o que está a ele relacionado, disse sim para uma nova oportunidade na advocacia que tem me feito muito bem. Exemplos sobre sim e não concomitantes em razão de escolhas que fiz são inúmeros, mas não é necessário apresentar todos.

É interessante que uma frase tão simples passe despercebida por nós a todo momento. Por alguma razão, no nosso viver tão apressado não damos conta de que, se e quando eu escolho algo ou alguém, inexoravelmente eu deixo de lado outros tantos algos e alguéns. E o importante de ter essa compreensão é que sou responsável pela escolha que faço. Se estou em Juiz de Fora desenvolvendo minha vida, os nãos que falei para Sete Lagoas e todas as pessoas, coisas, situações que lá estão são responsabilidade minha. Se sofro por muitas vezes, ou quase todas, eu ficar de fora do encontro entre meus queridos amigos de lá, só posso atribuir esse sofrimento a mim mesmo. Não há arrastamento irresistível. Eu não tive de mudar para Juiz de Fora para estudar direito na matriz; eu escolhi me mudar para cá. Eu não tive de fazer o mestrado; eu escolhi cursá-lo; assim como eu não tive de interrompê-lo; eu escolhi não terminar o curso.

O interessante de se poder fazer escolhas é ser responsável por elas. Não posso culpar meus amigos por fazerem um churrasco em Sete Lagoas quando não estou lá. Eu escolhi estar aqui, eu sou responsável pela distância. Com minhas escolhas excluo algumas opções e incluo outra ou outras. Ainda que não deseje dizer não para algo ou alguém, o dizer sim para outro algo ou outro alguém me faz dizer não àqueles primeiros. Talvez o "não" dito não seja mais importante que o "sim", mas ele faz parte das excludentes escolhas. Dito de outra forma, eu não queria dizer não para os meus amigos em Sete Lagoas (e nunca direi, pois fazem parte da minha vida de forma intensa e bela), mas ao dizer sim para a faculdade de direito em Juiz de Fora, acabei tendo de arcar com as consequências de vir para cá.

É pena que muitas vezes não tenhamos tão claro esse pensamento em nós. É pena que muitas vezes tenhamos de conviver com pessoas que sequer percebem essa relação entre as escolhas, a exclusão e a responsabilidade. Mas é verdade que a vida ensina. E aprender que quando escolho eu excluo e que só posso eu mesmo ser responsável pela minha opção é libertador.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Fazer o que se gosta

Fazer o que se gosta ou gostar do que se faz? Dúvida terrível que deve atormentar muita gente. Devo fazer o que eu gosto, mesmo que isso não me traga retorno financeiro, ou fazer algo que "dá dinheiro" e tentar gostar disso?

Há algum tempo vi no facebook um vídeo que dizia sobre deixar as pessoas serem felizes com aquilo que desejam fazer. Se quer ser palhaço de circo, na hipótese de ainda existir circo, que vá. Quem dirá isso para um filho? Duvido que sejamos muitos. Estamos todos mais ou menos acorrentados à necessidade de estabilidade, ao tormento da rotina e do hábito; estamos estagnados na forçosa sujeição de sermos sujeitos, sujeitados pela imposição do ser-quem-se-deve-ser. Escolher opções fora do padrão não faz parte desse modo de vida "normal". A zona de conforto, que muitas vezes retira de nós a vida-que-poderíamos-ter-levado, maltrata as nossas potencialidades.

Fazer o que se gosta independentemente de retorno financeiro. Só mesmo se você for um eremita! No mundo real, das necessidades do corpo e da alma, precisamos de dinheiro. Muito? Pouco? Aí é com cada um. Posso tentar viver uma vida simples, ganhando muito dinheiro, ou posso tentar viver uma vida simples, ganhando pouco. A escolha faz parte de mim, faz parte de cada ser. Fazer o que se gosta é mais gostoso; faz-se com amor, com paixão, com tesão. Faz-se sem perceber o tempo passar, sem obrigação. Faz-se pelo simples fato de se fazer. Fazer o que se gosta esgota a nossa criatividade, suga as forças mais belas que podemos ter. E tudo isso de modo belo, sublime até.

Fazer o que não se gosta só mesmo pelo dinheiro. Vida vazia. Despertador, transporte, suor, lágrima, rotina, recalque, submissão, demandas. Trabalhar com algo que não traz felicidade, que não estimula a paixão, é desperdiçar o que temos de melhor. É claro que é possível, com tempo e muita boa vontade, acabar gostando do que se começou a fazer apenas pelo dinheiro; não há problema quanto a isso, mas é preciso pensar e acreditar que podemos nos emancipar, nos tornar artífices da nossa existência, deixando fluir nossas potencialidades independentemente do dinheiro que ganhamos.

Algumas vezes, há a coincidência de fazermos algo de que gostamos e ganharmos algum dinheiro com essa atividade. Mas é sempre necessário refletir sobre o que fazemos, como fazemos, por que e para que fazemos. Ainda que tudo possa parecer bom, é sempre imprescindível pensar se ainda fazemos o que gostamos e ganhamos dinheiro com isso ou se ganhamos dinheiro e estamos automatizados no que fazemos.

Fazer o que se gosta. Ter coragem de romper as fronteiras e as barreiras que nos prendem, nos limitam. Fugir das amarras que nos atam a sofrimentos profissionais, quebrar os ídolos que elevamos diante de nós. Reduzir falsas necessidades e conseguir chegar mais longe e mais profundo na realização de si. Sonho? Talvez. Mas desejo isso para mim ainda hoje.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...