sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O ovo ou a galinha?

Lembro-me de uma aula na especialização em que o professor apresentou uma pirâmide social. No topo, advogados e outras profissões tradicionalmente distintivas, com remunerações acima da média geral e graus de escolaridade elevados. Obviamente, eu ri. Naquele momento eu satisfazia dois dos requisitos, mas não me encontrava, certamente, no topo da pirâmide social. Nem hoje me encontro; até porque, para mim, o todo da pirâmide não se mede em dinheiro, estudo ou posição. Mas isso é assunto para outra postagem. O que me fez rir foi comparar a realidade dos advogados ao aspecto de distinção que implica fazer parte do crème de la crème social.


Já faz algum tempo que penso sobre as dores e as delícias de ser advogado. Creio que esses pensamentos virão com maiores importância, profundidade e frequência a cada dia que passar exercendo este ofício. Entre as delícias estão o constante aprendizado. Tudo é novo quando se advoga. Por mais que se pense saber alguma matéria, alguma questão, sempre há o que aprender, ainda mais quando o direito se constrói, também, e ultimamente sobretudo, por meio de decisões judiciais. Aprender o direito é tarefa constante. E isso, para mim, é delicioso. Há também de delícias a possibilidade de defender pessoas nas quais eu acredito piamente. Algumas vezes advoga-se sem convicção, mas quando se pode falar pelo outro, por alguém em quem a gente acredita ter o direito a ampará-lo, as palavras vêm, as teorias se renovam, os dedos se aplicam sobre o teclado freneticamente e a defesa surge linda, límpida, simples e efetiva. Agrada também à mente e ao coração a possibilidade de, mesmo sem receber um só centavo, ajudar alguém que precise resolver uma situação. Assim como toda profissão, trabalhamos para podermos (sobre)viver, sendo remunerados pelo serviço. Mas poder atuar como advogado sem litígio, sem briga, sem desconfianças, apenas orientando ou auxiliando uma pessoa que necessita de um rumo, faz da advocacia uma profissão deliciosa.

Se há as delícias, que não se esgotam nas acima mencionadas, há também as dores. De todas estas, talvez a que mais me incomoda é a desvalorização da profissão. A desvalorização do advogado. Não do Fulano ou do Beltrano, mas da figura do advogado e da própria advocacia. Rebaixamento que vem de dentro da classe e de fora, do povo. O ovo ou a galinha? Começou-se essa desvalorização pelos advogados e a sociedade viu ou a sociedade desvalorizou e os advogados admitiram? É a quantidade de advogados existente que banaliza o apreço à profissão (ainda que cerca de 70% dos bacharéis não tenham condições mínimas para ser aprovados no Exame da OAB)? É a qualidade dos profissionais que faz com que demais operadores do direito desrespeitem prerrogativas ínsitas à profissão?

O art. 31 da Lei 8.906/94 (que dispõe sobre o Estatuto da Advocacia e da OAB) prescreve que "o advogado deve proceder de forma que o torne merecedor de respeito e que contribua para o prestígio da classe e da advocacia". É dever de cada um de nós, que estudamos o Direito e, posteriormente, nos inscrevemos na OAB, nos comportarmos de modo que sejamos merecedores de respeito pela sociedade. Embora toda pessoa seja digna de respeito e consideração só pelo fato de ser humano, o que a lei determina é que o ser-advogado-na-sociedade tem de ocorrer de forma que as pessoas valorizem o advogado e, segundo as palavras da lei, para o prestígio da classe e da advocacia. O problema, e nisto consiste a dor, é ver um sem número de advogados que o são por falta do que ser. Então se comportam de qualquer forma, escrevem de qualquer forma, advogam de qualquer forma. Contentam-se com o que receberam, de bom e de ruim, na faculdade e deixam de buscar aprender, não se importando com uma das delícias da profissão que é, exatamente, o aprendizado, o progresso, o aproveitamento das oportunidades que o ser advogado proporciona de ser uma pessoa melhor.

Se a Constituição da República de 1988 nos diz que o advogado é indispensável à administração da justiça, significa que, para alcançarmos um dos bens mais preciosos da humanidade em todos os tempos, devemos nós, advogados, sermos melhores a cada dia. Melhores conhecedores do Direito, melhores profissionais,  melhores humanos, "melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo". Para administrar a justiça, juntamente com as outras instituições, é necessário que não apenas o Direito esteja em nós, mas também valores que fazem dos advogados pessoas capazes de promover algo além de interesses imediatistas. A (re)valorização do advogado por parte da sociedade passa pela revalorização dos advogados por eles mesmos. O ovo ou a galinha? Em algum momento, a decisão pode quebrar o círculo vicioso e torná-lo virtuoso.

Não defendo privilégios ou preferências. Não advogo pela distinção de ser advogado. Tenciono pensar uma profissão valorizada, profissionais valorizados, advogados que, em tudo, tenham orgulho de fazerem o que fazem reconhecidamente.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre ternos e canetas

Mais de dois anos se passaram desde que comecei a escrever esta postagem. Data de 09 de março de 2012 a primeira tentativa e hoje é dia 09 de julho de 2014. O incentivo de terminar e publicar este post veio de uma série que a minha amiga Thaís (aquela a quem dediquei esta postagem) me indicou: Suits. Comecei a assistir ao seriado ontem e já gostei. Não se compara, até o momento, com Boston Legal, mesmo porque não tem o Alan Shore, mas parece que é bem interessante. O estalo para continuar esta postagem veio do seguinte diálogo entre os dois personagens principais, quando Harvey entrega um cartão a Mike:

Mike: (...) What's that?
Harvey: That's my suit guy. Go in, tell him I sent you and spend some money.
Mike: What does it matter how much money I spend on suits?
Harvey: People respond to how we're dressed so, like it or not, this is what you have to do.

Em tradução bastante livre:

Mike: O que é isso?
Harvey: É o meu alfaiate. Vá lá, diga a ele que eu te mandei e gaste dinheiro.
Mike: Que importa quanto dinheiro eu gasto em ternos?
Harvey: As pessoas respondem a como estamos vestidos, portanto, goste ou não, isso é o que você tem de fazer.


Com quantos paus se faz uma canoa? Já ouvi essa expressão inúmeras vezes e confesso que jamais entendi... afinal, de que tipo de canoa estamos falando?

Com quantos ternos se faz um advogado? Essa pergunta não havia surgido em minha mente até ouvir um diálogo outro dia. Dois advogados, um jovem recém-formado e outro já com sua experiência, assinavam o termo da audiência, trocavam opiniões sobre o que distingue um profissional jurídico de qualidade. "Ah! ternos e canetas!". Naquele instante não dei muita atenção à frívola conversa, talvez exatamente pela frivolidade dela. Entretanto, pouco depois, coloquei-me a pensar.

Um advogado de sucesso, então, se diferencia pelos ternos e pelas canetas que possui? Se isso significa que o sucesso é medido pela quantidade de dinheiro que ele conseguiu ganhar e pelo tanto que ele pode gastar, não concordo. Advogados picaretas podem ganhar muito dinheiro; podem até ter qualidade técnica. Mas não é só isso que determina a qualidade de um profissional. Até porque a advocacia é um ofício de meio, não de resultado. O advogado pode ter recebido muito dinheiro pelo trabalho, porém não ter obtido sucesso na ação do cliente. Ou ele pode ter redigido um contrato mal acabado e cobrado um bom dinheiro por isso.

Assistindo a seriados como Suits, Boston Legal, Harry's Law até mesmo Scandal percebo, apesar da fantasia da obra de ficção, que o terno bonito do advogado até faz alguma vista, mas todos esses bem vestidos advogados são, além de um rostinho bonito, extremamente inteligentes e bastante competentes naquilo que fazem. Quem veio primeiro: o terno ou a qualidade do profissional?

Essa discussão, aliás, é bem sexista, né? Se o que define um bom advogado é o terno que ele veste, que dizer de boas advogadas? Suit up, mulherada! Bom, elas se vestem bem também. Mas ainda há as canetas. Objetos para riscar papel, que podem custar cifras altíssimas. Afinal, assinar uma ata de audiência com uma Montblanc ou com uma Bic faz uma diferença danada.

Tudo deve ser espetáculo. Tudo deve ser visto e a primeira impressão é a que fica. Vista-se bem, ande num carrão, risque o papel com uma caneta de 10 mil reais e todos pensarão que você é um bom profissional. Ainda que não seja, é possível enganar. A pergunta "com quantos ternos se faz um bom advogado?" agora pode ser reformulada, inclusive, dessa forma: com quantos ternos se constrói a imagem de um bom advogado? O problema é que, algumas vezes, o pacotinho bonito esconde um conteúdo duvidoso.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Humanos

O advogado, o faxineiro, o lavrador
A lavadeira, a empresária e o marceneiro
A balconista, a médica, o doutor
O presidente, a puta e o banqueiro

O branco, a branca, o velho
A criança, o negro e a negra
O oriental, a índia, o gordo
A magra, o índio e o adolescente

Muçulmano, budista, cristão
Espírita, católico, protestante
Hare krishna, cínico, estoico
Umbandista, niilista, ateu.

Não sei fazer poesia; aliás, nem sou dos que gostam tanto dela. Percebe-se, né? Rimas pobres (quando há rima), falta de métrica, compasso nenhum... Mas preferi começar assim este texto. Várias faces de pessoas. Podem ser várias pessoas ou até mesmo uma só convergindo alguns daqueles rótulos. Afinal, o negro pode ser cristão e presidente assim como a índia pode ser hare krishna e puta. Por que não?

Creio que um dos problemas que nos atinge intensamente é observar um rótulo por vez. É mulher! É puta! É presidente! É negro! É rico! É índio! A cada vez que atribuímos um dos vários rótulos que temos a uma pessoa, matamos, sem querer - ou não - o que há nela além daquela pequena faceta que vemos. É puta? Sim, mas é também mãe, mulher, filha, vizinha. É bandido! Creio que não; mas, além de ter cometido algum delito, é também filho, irmão, vizinho. Propositalmente não disse que é trabalhadora ou trabalhador, porque, embora possam ser, não é só isso que diz sobre o caráter das nossas duas fictícias personagens. Além disso, podem, a puta e o "bandido", serem bastante religiosos.

Reconhecer que aquelas classificações não determinam o que há de essencial em cada ser humano é fundamental para vivermos bem. Observar além da aparente carne, vestimenta mortal que evidencia escolhas, é atitude das mais corretas para as relações entre todos nós. Imprescindível, para isso, pensarmos que não se trata do branco, do negro, do índio, do católico, do umbandista, do oriental ou do ocidental; trata-se de cada um e todos sermos pessoas.

Acredito que o mundo seria melhor se nos acostumássemos mais com a ideia de pessoa do que com a de indivíduo. ("Mais com" não exclui o menos, ok? É muito metodólogo para um mundo só.) A pessoa é relacional, é afetiva, é humana. A ideia de pessoa nos liga ao outro independentemente de disposições exteriores; vincula-nos pelo simples fato de sermos todos humanos. Considerarmo-nos pessoas, em vez de indivíduos, é admitirmos igualdade sem apontamentos heterônomos; sermos livres porque todos somos; solidários porque nos reconhecemos. Reconheço não só outros advogados, outros maridos ou outros filhos; reconheço também faxineiros, esposas e também desempregados. Afinal, somos todos humanos.

Tenho para mim que perceber os outros como pessoas, como humanos, sem atentar para os variados rótulos que em cada uma delas podem convergir, facilita nossa vida e nos previne de julgamentos. Seres na existência, que vivem e morrem buscando algum significado pelos tantos caminhos existentes (aqui não faço juízo de valor se alguns são "certos" e outros "errados"), somos todos peregrinos num mundo em que, quanto mais nos olharmos com compaixão, mais humanos nos tornaremos. É bastante visível a busca por um reino de felicidade - seja aqui, seja acolá - mas, enquanto nos distinguirmos individualmente, com grande dificuldade chegaremos a nos aproximar pessoalmente.

Sei que me meto, sem poder, em temas caros a estudos sociológicos, antropológicos e filosóficos; mas como bem sabem meus raros leitores, não sou sociólogo, não sou antropólogo, nem nada. Apenas tento pensar.


terça-feira, 3 de junho de 2014

Correria

Se tem uma palavra que me irrita profundamente é a tal da correria. Você encontra alguém na rua, mas ele/ela não pode parar, porque está "na correria". Você tenta combinar algo com alguém, mas ele/ela tem que consultar "a correria" da agenda. Uma mensagem no celular não respondida, um e-mail enviado e não lido, uma ligação perdida, porque o/a bendito/bendita está "numa correria". Que diabo é essa correria?

Para mim, o dia tem 24 horas. Para mim e para todo ser que habita este planeta. 24 horas para fazer o que se deve, o que se gosta e até o que não se quer. O mesmo tempo para mim é o mesmo para todos. "Ah! Mas o tempo é relativo". Claro que é. Hoje parece ser descolado dizer que tudo é relativo. E algumas coisas, situações e eventos até são mesmo. Mas as 24 horas de um dia são bastante absolutas. Relativa pode ser a sua vontade, a sua escolha, o seu desejo.

Para mim, a relatividade ligada a esse tempo da correria se vincula à prioridade e à honestidade. Posso escolher o que quero fazer, mas tenho que ser responsável por essa escolha. Se priorizo estar com meus amigos a estar enfiado no escritório até altas horas da noite, ou se priorizo fazer um curso de algo que me agrada em vez de estar preso a um compromisso chato, eu posso dar atenção às pessoas. Em outras palavras, se faço o que gosto, posso ter mais tempo, disposição e vontade de estar com quem gosto no momento que quero.

Além disso, também se relacionam a essa correria as nossas necessidades - reais ou criadas. Para ganhar muito dinheiro, algumas pessoas têm dois, três empregos. Para que trabalhar tanto e abrir mão de encontrar seus amigos ou de estar com sua família ou de fazer uma atividade descontraída? Para dar conta de ter tudo o que se deseja. Deseja demais, precisa demais, quer demais um monte de coisas que, convenhamos, não vão te fazer feliz. Nem serão úteis para sempre.

É claro que não faço apologia à quebra de compromissos, à ociosidade pura e simples ou à irresponsabilidade. Acredito que devemos cumprir alguns deveres, ainda que estes não nos deem tanto prazer quanto outras atividades. Harmonizar nossas obrigações com nosso lazer, equilibrar a realidade e o prazer seria algo bastante interessante para conseguir cessar a correria. Correria que não me permite saber da vida dos meus amigos, correria que não me permite trabalhar em algo que produza bons frutos, correria que me aliena de mim mesmo.

A única preocupação que deveríamos ter na vida é como ser verdadeira e plenamente felizes. Mas o mundo tem muitas opções para isso e, ao meu ver, boa parte delas está bastante distanciada da vera felicidade. Admira-me muito ver todos nós que temos uma ou outra religião ou filosofia não-materialista vivermos sempre em busca de... coisas materiais. Às vezes me assusto comigo mesmo tendo devaneios ou ansiedade em razão de bens, de coisas, de matéria. Não me assusto porque não penso nisso, mas me assusto pela importância que atribuo a isso. Se temos uma religião ou uma filosofia espiritualista, por que correr atrás do vento?

Mas a correria impõe-se a tantas pessoas. Todas correndo. Todas atrás de algo; quase nunca ao encontro de alguém.

*Atualização: O Cícero, grande amigo, para quem não há correria, me lembrou de uma música que casa com o texto:


sexta-feira, 28 de março de 2014

Não sei discutir

Não sei discutir; apelo. Agrido, xingo, brigo, só não tem contato físico. A cabeça dói, o coração dói, a consciência, logo logo, dói. Não sei discutir.

Mas que coisa! Por que não consigo me ver vencido? Ou consigo mas não aceito? De onde a necessidade de estar sempre certo? "Não quero ter razão, quero ser feliz", dizia o adesivo do carro. Eu também. Eu também os dois: quero ter razão e quero ser feliz.

Vá lá. Não estou sempre certo. Apenas acho que estou. E por isso quero convencer o outro, às vezes até mesmo sem me convencer do que estou falando. E quando, num átimo, mudo de opinião, dou razão ao interlocutor; afinal, posso ser intransigente, mas ainda consigo me dobrar.

Aí que está. Gosto de defender meus pontos de vista, minhas verdades, meus sustentáculos da vida. Como não sei discutir, apelo. Todavia, basta eu me convencer do ponto de vista do outro que aceito a mudança. Claro que sem dizer: "ok, você venceu! batata frita!" Orgulho e humildade de braços dados; antinomia meramente aparente.

Não sei discutir. Me perdoem. Perdoem a mim, "Eu, que venho sido vil, literalmente vil,Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."
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