quarta-feira, 9 de julho de 2014

Sobre ternos e canetas

Mais de dois anos se passaram desde que comecei a escrever esta postagem. Data de 09 de março de 2012 a primeira tentativa e hoje é dia 09 de julho de 2014. O incentivo de terminar e publicar este post veio de uma série que a minha amiga Thaís (aquela a quem dediquei esta postagem) me indicou: Suits. Comecei a assistir ao seriado ontem e já gostei. Não se compara, até o momento, com Boston Legal, mesmo porque não tem o Alan Shore, mas parece que é bem interessante. O estalo para continuar esta postagem veio do seguinte diálogo entre os dois personagens principais, quando Harvey entrega um cartão a Mike:

Mike: (...) What's that?
Harvey: That's my suit guy. Go in, tell him I sent you and spend some money.
Mike: What does it matter how much money I spend on suits?
Harvey: People respond to how we're dressed so, like it or not, this is what you have to do.

Em tradução bastante livre:

Mike: O que é isso?
Harvey: É o meu alfaiate. Vá lá, diga a ele que eu te mandei e gaste dinheiro.
Mike: Que importa quanto dinheiro eu gasto em ternos?
Harvey: As pessoas respondem a como estamos vestidos, portanto, goste ou não, isso é o que você tem de fazer.


Com quantos paus se faz uma canoa? Já ouvi essa expressão inúmeras vezes e confesso que jamais entendi... afinal, de que tipo de canoa estamos falando?

Com quantos ternos se faz um advogado? Essa pergunta não havia surgido em minha mente até ouvir um diálogo outro dia. Dois advogados, um jovem recém-formado e outro já com sua experiência, assinavam o termo da audiência, trocavam opiniões sobre o que distingue um profissional jurídico de qualidade. "Ah! ternos e canetas!". Naquele instante não dei muita atenção à frívola conversa, talvez exatamente pela frivolidade dela. Entretanto, pouco depois, coloquei-me a pensar.

Um advogado de sucesso, então, se diferencia pelos ternos e pelas canetas que possui? Se isso significa que o sucesso é medido pela quantidade de dinheiro que ele conseguiu ganhar e pelo tanto que ele pode gastar, não concordo. Advogados picaretas podem ganhar muito dinheiro; podem até ter qualidade técnica. Mas não é só isso que determina a qualidade de um profissional. Até porque a advocacia é um ofício de meio, não de resultado. O advogado pode ter recebido muito dinheiro pelo trabalho, porém não ter obtido sucesso na ação do cliente. Ou ele pode ter redigido um contrato mal acabado e cobrado um bom dinheiro por isso.

Assistindo a seriados como Suits, Boston Legal, Harry's Law até mesmo Scandal percebo, apesar da fantasia da obra de ficção, que o terno bonito do advogado até faz alguma vista, mas todos esses bem vestidos advogados são, além de um rostinho bonito, extremamente inteligentes e bastante competentes naquilo que fazem. Quem veio primeiro: o terno ou a qualidade do profissional?

Essa discussão, aliás, é bem sexista, né? Se o que define um bom advogado é o terno que ele veste, que dizer de boas advogadas? Suit up, mulherada! Bom, elas se vestem bem também. Mas ainda há as canetas. Objetos para riscar papel, que podem custar cifras altíssimas. Afinal, assinar uma ata de audiência com uma Montblanc ou com uma Bic faz uma diferença danada.

Tudo deve ser espetáculo. Tudo deve ser visto e a primeira impressão é a que fica. Vista-se bem, ande num carrão, risque o papel com uma caneta de 10 mil reais e todos pensarão que você é um bom profissional. Ainda que não seja, é possível enganar. A pergunta "com quantos ternos se faz um bom advogado?" agora pode ser reformulada, inclusive, dessa forma: com quantos ternos se constrói a imagem de um bom advogado? O problema é que, algumas vezes, o pacotinho bonito esconde um conteúdo duvidoso.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Humanos

O advogado, o faxineiro, o lavrador
A lavadeira, a empresária e o marceneiro
A balconista, a médica, o doutor
O presidente, a puta e o banqueiro

O branco, a branca, o velho
A criança, o negro e a negra
O oriental, a índia, o gordo
A magra, o índio e o adolescente

Muçulmano, budista, cristão
Espírita, católico, protestante
Hare krishna, cínico, estoico
Umbandista, niilista, ateu.

Não sei fazer poesia; aliás, nem sou dos que gostam tanto dela. Percebe-se, né? Rimas pobres (quando há rima), falta de métrica, compasso nenhum... Mas preferi começar assim este texto. Várias faces de pessoas. Podem ser várias pessoas ou até mesmo uma só convergindo alguns daqueles rótulos. Afinal, o negro pode ser cristão e presidente assim como a índia pode ser hare krishna e puta. Por que não?

Creio que um dos problemas que nos atinge intensamente é observar um rótulo por vez. É mulher! É puta! É presidente! É negro! É rico! É índio! A cada vez que atribuímos um dos vários rótulos que temos a uma pessoa, matamos, sem querer - ou não - o que há nela além daquela pequena faceta que vemos. É puta? Sim, mas é também mãe, mulher, filha, vizinha. É bandido! Creio que não; mas, além de ter cometido algum delito, é também filho, irmão, vizinho. Propositalmente não disse que é trabalhadora ou trabalhador, porque, embora possam ser, não é só isso que diz sobre o caráter das nossas duas fictícias personagens. Além disso, podem, a puta e o "bandido", serem bastante religiosos.

Reconhecer que aquelas classificações não determinam o que há de essencial em cada ser humano é fundamental para vivermos bem. Observar além da aparente carne, vestimenta mortal que evidencia escolhas, é atitude das mais corretas para as relações entre todos nós. Imprescindível, para isso, pensarmos que não se trata do branco, do negro, do índio, do católico, do umbandista, do oriental ou do ocidental; trata-se de cada um e todos sermos pessoas.

Acredito que o mundo seria melhor se nos acostumássemos mais com a ideia de pessoa do que com a de indivíduo. ("Mais com" não exclui o menos, ok? É muito metodólogo para um mundo só.) A pessoa é relacional, é afetiva, é humana. A ideia de pessoa nos liga ao outro independentemente de disposições exteriores; vincula-nos pelo simples fato de sermos todos humanos. Considerarmo-nos pessoas, em vez de indivíduos, é admitirmos igualdade sem apontamentos heterônomos; sermos livres porque todos somos; solidários porque nos reconhecemos. Reconheço não só outros advogados, outros maridos ou outros filhos; reconheço também faxineiros, esposas e também desempregados. Afinal, somos todos humanos.

Tenho para mim que perceber os outros como pessoas, como humanos, sem atentar para os variados rótulos que em cada uma delas podem convergir, facilita nossa vida e nos previne de julgamentos. Seres na existência, que vivem e morrem buscando algum significado pelos tantos caminhos existentes (aqui não faço juízo de valor se alguns são "certos" e outros "errados"), somos todos peregrinos num mundo em que, quanto mais nos olharmos com compaixão, mais humanos nos tornaremos. É bastante visível a busca por um reino de felicidade - seja aqui, seja acolá - mas, enquanto nos distinguirmos individualmente, com grande dificuldade chegaremos a nos aproximar pessoalmente.

Sei que me meto, sem poder, em temas caros a estudos sociológicos, antropológicos e filosóficos; mas como bem sabem meus raros leitores, não sou sociólogo, não sou antropólogo, nem nada. Apenas tento pensar.


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