segunda-feira, 30 de março de 2015

Viver à altura dos princípios

Não tenho boa memória para falas de personagens de filmes ou séries. Aliás, acabo de assistir a algum vídeo e já me esqueci de muita coisa. Fica a linha geral do roteiro, mas as minúcias do filme, da série se perdem. Contudo, há algumas passagens de Boston Legal de que jamais me esqueço. Acredito que deve haver uma tal identificação intelectual, emocional e/ou espiritual com o que assisto ou escuto para ficar gravado em minha memória.

Uma das falas do personagem mais foda de todos, Alan Shore, tem vindo à minha mente e se repetido constantemente. Seja lá por que motivo for, fico ouvindo aquele encerramento dele: "Last night I went to bed with a book, not nearly as much fun as a 29 year old, but the book contained a speech by Adlai Stevenson. The year was 1952, he said 'The tragedy of our day is the climate of fear in which we live and fear breeds repression. Too often sinister threats to the Bill of Rights, to freedom of the mind, are concealed under the cloak of anti-Communism.' Today, it's the cloak of anti-Terrorism. Stevenson also remarked that it's far easier to fight for principles than to live up to them. I know we are all afraid, but the Bill of Rights, we have to live up to that, we simply must." (em tradução super livre: "Ontem à noite fui para a cama com um livro, nada tão bom como ir com uma mulher de 29 anos, mas o livro continha um discurso de Adlai Stevenson. O ano era 1952, ele disse 'A tragédia de nossos dias é o clima de medo no qual vivemos e o medo gera repressão. Muito frequentemente a ameaça sinistra à Declaração de Direitos [dos EUA], à liberdade de pensamento, são escondidas sob a máscara do anti-Comunismo'. Hoje, é a máscara do anti-Terrorismo. Stevenson ainda observou que é bem mais fácil lutar por princípios do que viver à altura deles. Eu sei que todos estamos com medo, mas a Declaração de Direitos, todos devemos viver à altura dela, simplesmente devemos.")



Seria mentiroso dizer que todo esse texto está na minha mente, sobretudo em inglês. Não. A citação foi apresentada no todo, porque ela é toda interessante. Mas somente esta parte tem martelado minha cabeça dia e noite: "é bem mais fácil lutar por princípios do que viver à altura deles". Seja qual for a filosofia, a religião, ou qualquer outra escolha que uma pessoa faça para nortear sua vida, é verdade que nem sempre se anda de acordo com os princípios dessa filosofia, religião. É verdadeiramente difícil adequar a própria vida aos ditames normativos de uma filosofia/religião. Pregamos, mas não fazemos... Can you practice what you preach? Or would you turn the other cheek? já perguntava a banda Black Eyed Peas em Where's the love?

Podemos lutar por princípios, e geralmente o fazemos com luta, com embate, com desavenças, mas damos um milhão de desculpas, das mais sofisticadas às mais esfarrapadas, para justificar nosso desacordo com aqueles princípios. É difícil! É de outros tempos! É para santos! O esforço, este grande aliado do ser humano, frequentemente é deixado de lado, para sustentarmos hábitos que mais não são do que reflexos de nossa preguiça. Lutar por princípios pode acontecer em redes sociais; faço isso confortavelmente na minha cadeira diante de meu computador. Mas viver à altura deles demanda de mim ação, demanda de mim atividade verdadeira, não só digital. É impressionante como não utilizamos a vivência desses princípios quando vamos lutar por eles. Ou seja, é demasiado incoerente lutar por "paz" utilizando a guerra.

Algumas filosofias/religiões exigem dos seus adeptos comportamentos coerentes. Mas, em razão de nossa inconsciente discordância, ou de nosso constante egoísmo, insistimos nos comportamentos incoerentes. Por que não admitimos uma filosofia ou uma religião e não conformamos nossas ideias, opiniões, atitudes e até omissões a ela? Por que lutamos, algumas vezes só por meio da fala, e fala ao vento, e não vivemos à altura dos princípios filosóficos ou religiosos que adotamos?

Se esse pensamento serve para o indivíduo, certamente ele se adéqua às coletividades. Imaginemos nosso país. Ele tem uma das mais completas e belas Constituições. Porém, para alcançar os fins, os objetivos da República, deixamos princípios valiosos serem pisoteados por meios equivocados. Lutamos por democracia, mas não vivemos à altura dela. Censuramos, agredimos, odiamos tentando alcançar um fim democrático. Mas a democracia, podem me chamar de romântico, é uma forma de convivência que demanda de nós exatamente o respeito pelo diferente, a tentativa de harmonização das ideias distantes, o consenso - que não significa unanimidade.

Igualdade, liberdade, solidariedade, segurança, bem-estar, justiça são todos valores da nossa República. Viver à altura deles em âmbito nacional é tentar viver à altura deles no círculo mais íntimo de cada um de nós. O esforço para isso ocorrer deve existir, merece existir. Lutar por tudo isso, lutaram - efetivamente lutaram - há alguns anos. E se agora fosse o momento de vivermos - efetivamente vivermos - à altura dos nossos princípios?

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